Esporotricose em alta no Paraná: especialista alerta para o papel dos gatos na transmissão da doença

28 de julho de 2026

Dados apresentados pela Bióloga Dra. Raquel C. Marra, da Secretaria de Saúde do Paraná, mostram que a doença cresce de forma acelerada no estado e que o controle passa, necessariamente, pelo cuidado com os felinos

Na programação de sábado, 25 de julho, último dia do INFOCUS 2026 (Fórum Latino-Americano de Infecções Fúngicas na Prática Clínica, principal evento científico da América Latina focado em micologia médica, que reuniu mais de 700 especialistas para debater o diagnóstico, o tratamento de infecções fúngicas invasivas e a resistência aos remédios antifúngicos, em Curitiba), a Bióloga Dra. Raquel C. Marra, conselheira suplente do CRBio-07, apresentou sua atuação com a esporotricose. A doença é causada principalmente pelo fungo Sporothrix brasiliensis e transmitida, sobretudo, por gatos, deixou de ser um problema pontual para uma zoonose em expansão no Paraná. É o que revela o levantamento apresentado por ela, como especialista em saúde pública da Divisão de Vigilância de Zoonoses e Intoxicações, da Secretaria de Saúde do Paraná, durante palestra sobre o tema.

 

O crescimento da doença no estado

Desde que a notificação da esporotricose se tornou obrigatória no Paraná, em 2022, o número de casos registrados cresceu de forma expressiva:

  • Em 2022, foram 123 notificações em humanos, correspondendo a 57,2% do total de casos daquele ano.
  • Em 2023, o número saltou para 424 casos, correspondendo a 64,2% do total de casos daquele ano.
  • Em 2024, foram 554 notificações, correspondendo a 59,4% do total de casos daquele ano.
  • Em 2025, o total chegou a 789 casos, correspondendo a 58,2% do total de casos daquele ano.

O perfil epidemiológico em humanos mostra que a doença afeta principalmente a população economicamente ativa, entre 20 e 59 anos, com predominância entre mulheres, inclusive gestantes, principalmente no segundo trimestre. Casos também foram registrados em grupos mais vulneráveis, como crianças menores de 1 ano e idosos acima de 80 anos.

A grande maioria dos casos (mais de 93% em todos os anos analisados) ocorre em áreas urbanas, o que reforça o caráter urbano da doença diretamente ligado à convivência próxima entre humanos e gatos domiciliados nas cidades.

 

A relação direta entre gatos e humanos

Um dos pontos centrais da apresentação foi a forte correlação estatística entre os casos felinos e humanos da doença. Segundo a análise de regressão linear apresentada, 97,6% da variação nos casos humanos pode ser explicada pelos casos em felinos (R² = 0,976). Na prática, isso significa que a cada caso adicional em gatos, observa-se um aumento médio de 0,25 caso em humanos.

Os dados também mostram que mais de 96% dos gatos diagnosticados com esporotricose no Paraná vivem em áreas urbanas. Entre 90% e 94% dos felinos infectados foram registrados pelo responsável do animal. O diagnóstico positivo em felinos cresceu ano a ano, acompanhando o fortalecimento do sistema de vigilância estadual.

“Cada quatro casos em animais, aproximadamente temos um caso em humano. Esse indicador varia por município do Paraná. É uma correlação muito forte e que aponta exatamente para onde deve ir o esforço de controle: os gatos”, explica a Dra. Raquel Marra.

 

Uma resposta integrada: a abordagem Saúde Única (One Health)

Diante desse cenário, o Paraná estruturou um conjunto de ações que integram saúde humana, animal e ambiental, no conceito conhecido como One Health (Saúde Única). Entre as iniciativas destacadas na apresentação estão:

  • A disponibilização gratuita de itraconazol para tratamento de gatos, desde 2023, com o objetivo de interromper a cadeia de transmissão para humanos.
  • Parcerias intersetoriais com órgãos ambientais e assistência social, especialmente em casos de acúmulo de animais.
  • A Resolução Conjunta SEDEST/SESA/IAT nº 11/2023 estabelece procedimentos para recolhimento e destinação final adequada de carcaças de animais suspeitos e/ou confirmados para a esporotricose.
  • Ações de priorização de castração de felinos realizadas por meio da parceria entre a SESA, o IAT (CastraPet) com foco na redução da circulação do fungo.
  • Em desenvolvimento: atenção especial a populações vulneráveis, como comunidades indígenas, em articulação com a Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI), já que o gato doméstico é uma espécie exótica nesses territórios e representa risco adicional de introdução da doença.

 

O papel essencial do Biólogo na Saúde Única

Para a Dra. Raquel Marra, o Biólogo ocupa um lugar estratégico nesse tipo de enfrentamento justamente por transitar entre as três frentes da Saúde Única (ambiental, animal e humana). “Consigo visualizar o problema de forma ampla: identificar o fungo através da taxonomia, entender o comportamento e a Biologia dos animais envolvidos, e ao mesmo tempo dialogar com a saúde humana. É essa visão integrada que faz diferença no controle de uma doença como essa”, destaca.

 

Conclusões da vigilância epidemiológica

A apresentação reuniu as seguintes conclusões principais sobre o cenário da esporotricose no Paraná entre 2022 e 2025:

  1. A esporotricose é uma zoonose urbana em expansão no estado.
  2. Gatos desempenham papel central na manutenção da transmissão, por isso os tutores precisar estar atentos aos cuidados. Neste ponto, Raquel faz um apelo sobre a questão do abandono de gatos nas ruas, onde a esporotricose dificilmente é registrada.
  3. A forte associação entre casos felinos e humanos reforça a necessidade de vigilância integrada sob a ótica da Saúde Única.
  4. Diagnóstico precoce, tratamento de gatos infectados e ações intersetoriais coordenadas são fundamentais para o controle da doença.
  5. Controlar a esporotricose felina é essencial para prevenir a esporotricose humana.

 

Como resume a especialista: Os gatos não são os vilões. São vítimas da esporotricose. Proteger os gatos é proteger as pessoas.

Dúvidas sobre a doença podem ser encaminhadas para: esporoticose.pr@sesa.pr.gov.br