Dados apresentados pela Bióloga Dra. Raquel C. Marra, da Secretaria de Saúde do Paraná, mostram que a doença cresce de forma acelerada no estado e que o controle passa, necessariamente, pelo cuidado com os felinos
Na programação de sábado, 25 de julho, último dia do INFOCUS 2026 (Fórum Latino-Americano de Infecções Fúngicas na Prática Clínica, principal evento científico da América Latina focado em micologia médica, que reuniu mais de 700 especialistas para debater o diagnóstico, o tratamento de infecções fúngicas invasivas e a resistência aos remédios antifúngicos, em Curitiba), a Bióloga Dra. Raquel C. Marra, conselheira suplente do CRBio-07, apresentou sua atuação com a esporotricose. A doença é causada principalmente pelo fungo Sporothrix brasiliensis e transmitida, sobretudo, por gatos, deixou de ser um problema pontual para uma zoonose em expansão no Paraná. É o que revela o levantamento apresentado por ela, como especialista em saúde pública da Divisão de Vigilância de Zoonoses e Intoxicações, da Secretaria de Saúde do Paraná, durante palestra sobre o tema.
O crescimento da doença no estado
Desde que a notificação da esporotricose se tornou obrigatória no Paraná, em 2022, o número de casos registrados cresceu de forma expressiva:
- Em 2022, foram 123 notificações em humanos, correspondendo a 57,2% do total de casos daquele ano.
- Em 2023, o número saltou para 424 casos, correspondendo a 64,2% do total de casos daquele ano.
- Em 2024, foram 554 notificações, correspondendo a 59,4% do total de casos daquele ano.
- Em 2025, o total chegou a 789 casos, correspondendo a 58,2% do total de casos daquele ano.
O perfil epidemiológico em humanos mostra que a doença afeta principalmente a população economicamente ativa, entre 20 e 59 anos, com predominância entre mulheres, inclusive gestantes, principalmente no segundo trimestre. Casos também foram registrados em grupos mais vulneráveis, como crianças menores de 1 ano e idosos acima de 80 anos.
A grande maioria dos casos (mais de 93% em todos os anos analisados) ocorre em áreas urbanas, o que reforça o caráter urbano da doença diretamente ligado à convivência próxima entre humanos e gatos domiciliados nas cidades.
A relação direta entre gatos e humanos
Um dos pontos centrais da apresentação foi a forte correlação estatística entre os casos felinos e humanos da doença. Segundo a análise de regressão linear apresentada, 97,6% da variação nos casos humanos pode ser explicada pelos casos em felinos (R² = 0,976). Na prática, isso significa que a cada caso adicional em gatos, observa-se um aumento médio de 0,25 caso em humanos.
Os dados também mostram que mais de 96% dos gatos diagnosticados com esporotricose no Paraná vivem em áreas urbanas. Entre 90% e 94% dos felinos infectados foram registrados pelo responsável do animal. O diagnóstico positivo em felinos cresceu ano a ano, acompanhando o fortalecimento do sistema de vigilância estadual.
“Cada quatro casos em animais, aproximadamente temos um caso em humano. Esse indicador varia por município do Paraná. É uma correlação muito forte e que aponta exatamente para onde deve ir o esforço de controle: os gatos”, explica a Dra. Raquel Marra.
Uma resposta integrada: a abordagem Saúde Única (One Health)
Diante desse cenário, o Paraná estruturou um conjunto de ações que integram saúde humana, animal e ambiental, no conceito conhecido como One Health (Saúde Única). Entre as iniciativas destacadas na apresentação estão:
- A disponibilização gratuita de itraconazol para tratamento de gatos, desde 2023, com o objetivo de interromper a cadeia de transmissão para humanos.
- Parcerias intersetoriais com órgãos ambientais e assistência social, especialmente em casos de acúmulo de animais.
- A Resolução Conjunta SEDEST/SESA/IAT nº 11/2023 estabelece procedimentos para recolhimento e destinação final adequada de carcaças de animais suspeitos e/ou confirmados para a esporotricose.
- Ações de priorização de castração de felinos realizadas por meio da parceria entre a SESA, o IAT (CastraPet) com foco na redução da circulação do fungo.
- Em desenvolvimento: atenção especial a populações vulneráveis, como comunidades indígenas, em articulação com a Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI), já que o gato doméstico é uma espécie exótica nesses territórios e representa risco adicional de introdução da doença.
O papel essencial do Biólogo na Saúde Única
Para a Dra. Raquel Marra, o Biólogo ocupa um lugar estratégico nesse tipo de enfrentamento justamente por transitar entre as três frentes da Saúde Única (ambiental, animal e humana). “Consigo visualizar o problema de forma ampla: identificar o fungo através da taxonomia, entender o comportamento e a Biologia dos animais envolvidos, e ao mesmo tempo dialogar com a saúde humana. É essa visão integrada que faz diferença no controle de uma doença como essa”, destaca.
Conclusões da vigilância epidemiológica
A apresentação reuniu as seguintes conclusões principais sobre o cenário da esporotricose no Paraná entre 2022 e 2025:
- A esporotricose é uma zoonose urbana em expansão no estado.
- Gatos desempenham papel central na manutenção da transmissão, por isso os tutores precisar estar atentos aos cuidados. Neste ponto, Raquel faz um apelo sobre a questão do abandono de gatos nas ruas, onde a esporotricose dificilmente é registrada.
- A forte associação entre casos felinos e humanos reforça a necessidade de vigilância integrada sob a ótica da Saúde Única.
- Diagnóstico precoce, tratamento de gatos infectados e ações intersetoriais coordenadas são fundamentais para o controle da doença.
- Controlar a esporotricose felina é essencial para prevenir a esporotricose humana.
Como resume a especialista: Os gatos não são os vilões. São vítimas da esporotricose. Proteger os gatos é proteger as pessoas.
Dúvidas sobre a doença podem ser encaminhadas para: esporoticose.pr@sesa.pr.gov.br






