Plataforma criada pelo Jardim Botânico do Rio reúne informações de todas espécies de plantas, algas e fungos nativos do Brasil

24 de fevereiro de 2021

Projeto Flora do Brasil 2020 já catalogou 46.975 espécies


Você sabia que a costela-de-adão (Monstera adans) é encontrada na Amazônia, Caatinga, Cerrado e Mata Atlântica? Ou que o jacarandá (Dalbergia spruceana) também é conhecido como sabuarana? São informações como essas que o projeto Flora do Brasil 2020, elaborado pelo Jardim Botânico do Rio de Janeiro (JBRJ), catalogou ao longo dos últimos 12 anos e reuniu no mais completo banco de dados da vegetação nativa do país, totalizando 46.975 espécies de plantas, algas e fungos da flora nacional já identificadas.

Todo esse material sobre a biodiversidade brasileira já está acessível numa plataforma online disponível para consultas. São informações essenciais para pesquisadores em botânica, assim como curiosidades e dados úteis para apaixonados por plantas. E este número não para de crescer, com novas descrições atualizando o banco de dados constantemente.

— Uma nova espécie de planta é descrita por dia no Brasil — conta a pesquisadora Rafaela Campostrini Forzza, coordenadora da Flora do Brasil 2020 — No ano passado o Brasil foi o país que mais descreveu espécies de planta no mundo. Então é um serviço contínuo e é surpreendente a quantidade de espécies que ainda estamos descobrindo.

Apenas entre 2015 e 2020, tempo em que a plataforma já está disponível para o público consultar, foram descritas como novas para a ciência aproximadamente 2100 espécies de plantas, fungos e algas brasileiras. 55% das espécies de plantas terrestres catalogadas são endêmicas do país, ou seja, ocorrem exclusivamente em território brasileiro.

O site permite buscas por diversas referências à espécie desejada, inclusive a partir apenas do nome popular. Entre os dados que o usuário encontra no sistema estão os nomes científicos atualizados, distribuição geográfica de cada espécie, substratos, formas de vida, tipos de vegetação, além de imagens das plantas. Informações sobre as espécies ameaçadas também estão disponíveis, graças a uma parceria com o Centro Nacional de Conservação da Flora (CNCFlora).

Antes do projeto, a única obra que reunia as informações necessárias para a identificação de todas as plantas nativas do país conhecidas era a “Flora brasiliensis”, iniciada pelo botânico e expedicionista alemão Philipp von Martius em 1840 e concluída por seus colaboradores em 1906, há 115 anos.
 

Democratização da botânica

Toda catalogação produzida por pesquisadores desde então se encontrava dispersa entre artigos, livros, listas, repositórios e acervos – inclusive no exterior. Segundo Campostrini, a plataforma do Flora do Brasil foi uma forma de democratizar o acesso às informações botânicas para um público mais amplo, e não somente o especializado. 

— Quem entrar pode, por exemplo, pesquisar se a garapa (tipo de árvore) é uma espécie nativa da sua região e se não estará introduzindo uma espécie que pode afetar a biodiversidade local se decidir plantá-la — exemplifica a pesquisadora.

O trabalho envolveu uma rede de 979 pesquisadores de 224 instituições em 25 países. Eles levantaram, organizaram e validaram todas as informações no sistema, onde incluíram as descrições, chaves de identificação e imagens para 375 famílias e 3.204 gêneros botânicos.

Com a publicação deste balanço, o projeto bate a marca de 92 % da Meta 1 da Estratégia Global para Conservação de Plantas (Global Strategy for Plant Conservation – GSPC) para 2020, documento que faz parte da Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB), da qual o Brasil é signatário.

Em tempos de pandemia da Covid-19, a pesquisadora torce ainda para que o interesse por plantas, cuja procura para cultivo caseiro cresceu durante o isolamento social, desperte a sociedade para a importância da preservação da nossa biodiversidade.

— Quanto mais informação, mais as pessoas se apoderam do que é seu. A pandemia da Covid-19 nada mais é do que o resultado de nossas agressões à natureza. As pessoas ainda não se dão conta que precisam das árvores para viver num bom ambiente — diz a Campostrini, defendendo a importância acesso ao conhecimento para uma vida mais sustentável — Acho que essa aproximação com a biodiversidade pode mudar esse paradigma.

Fonte: O Globo